Onde me levasses

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Rio-me da ironia que é estar no chão desta esquina quando tudo o que queria era estar ao teu lado. Rio-me, porque eu teria ido contigo onde tu fosses. Onde me levasses ou onde me pedisses para ir, ou onde a tua teimosia me deixasse ir. Mas no final, deixaste-me foi aqui. Onde achaste que as tuas falhas já não iam fazer-me tropeçar na minha própria vida, depois de ter tropeçado na tua. Mas sabes? Eu não teria visto as falhas no teu coração se não mas tivesses atirado à cara. Nem o buraco na tua alma, nem o vazio nas tuas palavras. Mas nós tropeçamos na vida dos outros e só vemos aquilo que queremos ver, e tudo o resto que o coração precisa fica mascarado. Por mãos dadas, por abraços durante a noite. Fica mascarado e nós damos tudo, vendemos a alma e damos de graça o coração, pedimos em troca muito menos do que precisamos e vamos esperando e acreditando que isso basta. E para mim bastava, até me teres tirado tudo sem me devolveres nada do que te dei, e eu dei-te tanto. Eu dei-te tudo, tudo, por mãos dadas que afinal não me impediram de cair, por abraços que afinal não eram apertados que chegasse, e no final tu deixaste-me aqui. E eu dei-te tudo, tudo. Maldita a hora em que vendi a minha alma para conquistar o teu coração.

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Para sempre, Outono

annie-spratt-40195-unsplash.jpgChegou mais um outono e a sua chegada anunciou que se cumpriu o meu maior medo. Fiquei sozinha no banco do jardim a ver as folhas, mortas, de vários tons, a caírem e cobrirem a rua. No banco onde saberia que terminaria todas as minhas estações se o meu medo se cumprisse. Cumpriu. É outono e tu não estás. É outono e tu nunca estás. Outono, revisitado. Será sempre outono a partir de agora. Viverei na estação mais triste do ano. Sozinha. Sentada sozinha naquele banco de jardim. Aquele junto à última paragem. Sempre fui última paragem e serei agora outono todos os dias até eu, como as folhas das árvores, cair morta à terra. É outono e tu não vais voltar.  Viverei triste e sem esperança para sempre neste outono. Sentada num banco que foi feito para dois. O resto dos meus dias. Serás sempre outono em mim.

Desapego.

As mensagens ficam por ler. Talvez assim ela pense que não as viste, apesar da aplicação te denunciar online. Assim, pensas tu, não leste não tens que responder. Ela sabe. Pode até esperar isso de ti. Um comportamento tantas vezes repetido que já não há direito a acusar estranheza.

Ela pode estar nua ou vestida, penteada ou com a maquilhagem borrada. Pode ter a cara inchada de chorar ou parecer radiante. Desapego. Não reages. É como se ela fosse invisível. Só dás por conta do espaço que ocupa. Até já adormeceres ao som do choro dela te parece aceitável. E consegues fazê-lo sem esforço. Ela sabe que já não te importas. Tu disseste-lhe. O problema é dela. Dorme descansado.

Ela pode estar doente ou sã. Isso não é assunto teu. Não te envolves. Nem perguntas. Receias que possa ter alguma coisa a ver contigo…e isso?  E isso não queres tu que tenha nada que ver contigo. Já a avisaste. Ela sabe. Que não se queixe nem reclame atenção. A tua atenção já não é dela há muito tempo e como tu a avisaste, ela que não se lembre sequer de espernear. O efeito do desapego. Mas tu avisaste não foi? Tu avisaste e ela na ânsia de te ter ignorou. O problema é dela. Tu avisaste. Achas que como avisaste tens a tua honra intacta. Problema dela. O problema sempre foi dela. O problema nunca foi teu. O problema nunca foste tu.

Fazes-me falta.

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Acho que a tua morte me fez ficar dividida entre o acreditar que num acaso a vida me devolve o que senti naqueles meses contigo ou em render-me que o resto depois de ti será sempre medíocre. Deixaste-me cá entre pessoas na maioria mais mortas por dentro do que tu que afinal morreste mesmo. Quando o mundo me dói sinto a tua falta. A falta da tua leveza, do teu sorriso sem motivo, dos teus rasgos entusiastas em que tornavas fantasias em momentos reais. Continuas a fazer-me sorrir, aí do céu, ou do emaranhado de estrelas onde por certo vives, entre aquele conjunto de estrelas que um dia elegemos juntos como nossas, de forma a estarmos sempre perto um do outro, quando estávamos longe. “Quando tiveres saudades minhas olha para aquele conjunto de estrelas e saberás que também as vejo“, dizias. Eras incurável nessa tua forma de romantizares tudo. Foste tu quem me ensinou o que era poder viver com as barreiras em baixo, sem muros, sem escudos. Pergunto-me muitas vezes, ainda passado estes anos todos, qual o propósito de tudo o que aconteceu. Foste-me roubado, arrancado de uma forma tão brutal que tudo é agora vivido por mim se forma frágil, insegura. Fizeste, dizias tu “trinta por uma linha” para que me rendesse a ti e desapareceste de seguida. No dia em que morreste morreu uma parte de mim contigo. Deixaste-me cá com as memórias que criámos juntos e sei que todas elas são boas, aquecem-me o coração nas minhas noites tristes. E há momentos, confesso, em que dava tudo  para voltar para aquela noite em que sentada no capô quente do teu carro, com os pés desnudos, te chamava louco por estares a atirar sonhos a dois a cada pedrinha que fazias saltitar desde a margem do rio Lima. Foste-me roubado e deixaste a fasquia demasiado alta para qualquer outro homem. Esta noite sonhei contigo. Estavas igual. Sorriso imaculado com galáxias a dançarem-te nos olhos. Fazes-me falta.

An almost short story – part II

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Ele trouxe com ele o mesmo sorriso que lhe iluminava a cara e sentou-se à sua frente enquanto ela, surpresa por não o ter visto chegar, disfarçava o acelerar da sua respiração. Sabia que o veria naquela noite mas não estava certa de lhe reconhecer o mesmo cheiro, o mesmo toque na cintura enquanto a cumprimentava, o mesmo efeito do sorriso que recordava que ele lhe provocava. Facilmente fez a conversa fluir com as pessoas que partilhavam a mesma mesa, parecia querer a sua aprovação, como se precisasse dela. Nunca precisou. Rodava de forma eloquente o copo de gin que tinha pedido, o único que beberia, enquanto a fitava com aqueles olhos castanhos, volta e meia directamente nos olhos, que a invadiam e a mantinham calada, durante as trocas de conversa com os estranhos que já tratava por tu após poucos bafos no cigarro que acendeu. Os amigos passavam-lhe a mensagem de aprovação, a tal de que ele nunca precisaria. O tempo voou e foi curto para as expectativas que tinha criado durante o longo período de tempo em que não soube sequer se se voltariam a ver. Com o seu último trago no gin anunciou a sua despedida, sempre com um sorriso que não lhe largou a face nem quando falou sobre um assunto sério que lhe tinha trazido angústia dias antes a par com decisões que tinha tomado e que lhe mudariam, provavelmente, o rumo da vida. Avançaram juntos na rua, deixando por momentos os amigos fora do seu alcance de olhar ou julgamento. Após a primeira linguagem corporal que ditava a despedida, os protocolares e respeitosos dois beijos na face, deram as mãos. Virados de frente um para o outro ficaram a olhar-se, ali no meio da rua numa hora tardia, de mãos dadas. Passou-lhe pela cabeça que as mãos firmes dele traziam segurança, calma. Novamente, como naquela noite que partilharam sozinhos o elevador, estavam de olhos mergulhados um no outro e os segundos pareceram estar a acelerar um momento que tinha sido adiado meses antes. Abraçaram-se para que os seus olhos pudessem fugir para outro lado que não os olhos que ali se perdiam e ela deu-lhe um beijo na face. E mais outro. Sentiu-lhe as mãos firmes na cintura e por pouco os seus joelhos não fraquejaram – a par com a mesma moralidade que os tinha feito sair em andares diferentes na noite em que se conheceram. Enquanto os seus corpos de afastavam num abraço que ali se desfez, as mãos procuraram novamente as do outro, para momentos depois se desatarem e numa despedida desconfortavelmente formal, seguirem direcções opostas. Mais uma vez, a par com o que tinha acontecido na noite em que partilharam o elevador enquanto se fitavam, a sua mente obrigou-a a questionar-se. Mais uma vez.

An almost short story – part I

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Ele saiu no piso 3 e ela no 5. Ele disse, duas vezes em baixo tom enquanto a fitava, que era aquele o seu andar. Ela sabia-o, sabia-o desde a noite anterior, decorou-lhe tudo desde que o viu a primeira vez. Naqueles segundos, de olhos perdidos um no outro, enquanto subiam juntos no elevador, sabiam que tinham uma escolha a fazer. Sair no mesmo piso, num rasgo inconsequente, ou sair cada um para o seu destino, separados. Mas os segundos, os poucos em que demorou aquela viagem de elevador, não foram suficientes para abafar a sua moralidade. Não foram o suficiente para que deixassem para trás as histórias que tinham acabado de confessar um ao outro, cheias de moralidades e defesas de honra. Confissões cruas de quem teve o coração pontapeado. A honra não se poderia ter perdido assim, em segundos, mesmo que mergulhados nos olhos um do outro, naqueles segundos até ao 3 andar. Mesmo que vivessem, assumidamente,  os dois a serem escamotaeados pela falta de honra de quem um dia escolheram, num piscar de olhos, honrar. Ela saiu no 5 andar, depois de ele ter saído no 3 e questionou-se.

O tempo não cura tudo.

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“O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções”  – Martha Medeiros

Crescemos a ser educados sob premissas que mais tarde, nas hora de nos valermos delas, se revelam apenas ideias bonitas, talvez inventadas por quem teve poucos ou nenhuns apertos na vida. Esta de que o tempo tudo cura é uma delas. Era muito simpático que assim fosse, mas na realidade o tempo não cura. Pode diluir, pode retirar peso, pode até fazer desvanecer uma dor que no presente se afirme à força intransponível. Mas não, o tempo não cura. Transforma-nos, no máximo. Abana-nos nos nossos alicerces. O tempo só nos obriga a arranjar uma forma de sobrevivência, se quisermos ser optimistas. O tempo não salva, não resgata, não muda nada do que aconteceu. As coisas acontecem e no tempo que se segue tentamos de todas as maneiras arranjar ferramentas para nos aguentarmos, para sobrevivermos. E essas ferramentas e formas de viver acima das nossas tragédias, do que nos aconteceu ou nos fizeram, são nossas. Ninguém julgue que tem o direito de escolher os “remédios” ou remendos, que usamos nessas alturas. Ninguém tem o direito a apontar o dedo a ninguém. A ferida é nossa, a cura escolhemos nós. Se ao resto do mundo parecer uma afronta, uma infantilidade, um andar a brincar junto ao precipício…deixem-nos. Ninguém nesta vida salva ninguém. Temos que ser nós a salvar-nos do que nos fizeram ou a salvar-nos que nós mesmos. A dor de cada um é das coisas mais íntimas que existem. Que se lixem os clichés. “O que não te mata torna-te mais forte”, dizem. Tenho cá para mim que o que não nos mata lixa-nos durante muito tempo. O que não nos mata marca-nos, arrasta-nos por sítios muito feios.

O teu sorriso. Deve ter sido isso.

Recordo sem qualquer esforço todos os momentos que me levaram até àquele em que soube que te queria. Em todos eles, estavas a sorrir. Nem sempre para mim, nem sempre por causa de mim, mas lá estavas tu, a sorrir a cada vez que dei por mim embasbacada a olhar para ti. Em alguns momentos procuro na memória o teu sorriso como remédio. Os anos que já passaram fizerem-me à memória dano, a perda de particularidades tuas que o tempo fez desvanecer em mim, mas nunca o teu sorriso. Mantenho-o intacto. O teu sorriso. Deve ter sido isso.

É preciso ser-se generoso para amar alguém.

Como disse Sartre um dia, é preciso ser-se generoso para amar alguém. Acho que a generosidade se perdeu, foi-se desgastando ao longo dos tempos. Conheço poucas pessoas generosas, das que dão sem esperar nada em troca. Porque sim, porque a certo tempo todos temos a necessidade de cobrar. Não devíamos.
E, depois chegamos àqueles momentos, em que estamos perdidos nos detalhes que a nossa memória tem o condão maquiavélico de nos obrigar a recuperar de vez em quando, que nos colocamos em causa. Colocamos o Amor em causa. E o Amor não deveria ser posto à prova. Quando isso acontece, tristemente, na maioria das vezes o Amor acovarda-se, é prepotente e brutal, como o acusou Shakespeare.
E quando o amor se torna prepotente e nós, por teimosia, o queremos manter amor ficamos com o amor próprio doente. É difícil curarmos o amor próprio. Medicamos o amor próprio, tapamos as feridas com pensos, fingimos que ele está bom, que a febre desceu. A seu tempo ele nem tem marcas de doença, julgamos. Mas a cura dura só até o amor voltar a ser brutal e prepotente, até ser posto outra vez à prova, e falhar novamente. E ver o amor falhar é das coisas que mais custa. Quando o amor se acovarda, a memória nos obriga a recordar detalhes, e o amor próprio fica doente não nos restam muitas opções. Ou escolhemos voltar a usar os medicamentos, os pensos e a esperar que a febre desça ou optamos por nunca mais voltar a pôr o amor à prova, para não o vermos falhar e não termos que tomar nós uma decisão prepotente ou brutal, daquelas que vemos o amor tomar. E decidi a meio deste texto que o Amor passou para amor. Afinal, é mesmo assim que se escreve, quando não é ele quem começa uma frase.