Felicidade: um campo com papoilas

papoilasEra pequena e andava sempre com a cara suja. Usava t-shits do meu irmão, porque sim, que muitas vezes me passavam dos joelhos. Era traquina mas doce e tinha a cabeça cheia de sonhos. Tinha olhos curiosos e cintilantes, a cara cheia de sardas. Tinha sempre os joelhos arranhados e os cotovelos com crostas. Era, sobretudo, livre. Enfiava-me por atalhos de terra batida na minha BMX amarela, pedalava horas seguidas entre as várias aldeias que rodeiam a minha e quando dava com um campo com papoilas espojava-me nele horas. O cheiro a feno e os salpicos vermelhos nos campos sempre me lembraram a infância, a vida. Vermelho cor de sangue a salpicar o feno que já não verdejava. Pelo caminho nos meses secos apanhava amoras, a cara suja e as mãos manchadas eram muitas vezes delas, das amoras que comia quentes e sem a preocupação de esperar por chegar a casa e as lavar. Nunca me fizeram mal, pelo contrário. Tinha cabelo loiro fininho que da ventania, ora de andar de bicicleta, ora de lhe mexer com as mãos sujas, andava sempre cheio de nós. Mas era criança e tinha a felicidade de ter a minha BMX, herdada da minha prima, e podia espojar-me nos campos de papoilas, rebolar no feno e comer amoras quentes.

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