An almost short story – part II

almost

Ele trouxe com ele o mesmo sorriso que lhe iluminava a cara e sentou-se à sua frente enquanto ela, surpresa por não o ter visto chegar, disfarçava o acelerar da sua respiração. Sabia que o veria naquela noite mas não estava certa de lhe reconhecer o mesmo cheiro, o mesmo toque na cintura enquanto a cumprimentava, o mesmo efeito do sorriso que recordava que ele lhe provocava. Facilmente fez a conversa fluir com as pessoas que partilhavam a mesma mesa, parecia querer a sua aprovação, como se precisasse dela. Nunca precisou. Rodava de forma eloquente o copo de gin que tinha pedido, o único que beberia, enquanto a fitava com aqueles olhos castanhos, volta e meia directamente nos olhos, que a invadiam e a mantinham calada, durante as trocas de conversa com os estranhos que já tratava por tu após poucos bafos no cigarro que acendeu. Os amigos passavam-lhe a mensagem de aprovação, a tal de que ele nunca precisaria. O tempo voou e foi curto para as expectativas que tinha criado durante o longo período de tempo em que não soube sequer se se voltariam a ver. Com o seu último trago no gin anunciou a sua despedida, sempre com um sorriso que não lhe largou a face nem quando falou sobre um assunto sério que lhe tinha trazido angústia dias antes a par com decisões que tinha tomado e que lhe mudariam, provavelmente, o rumo da vida. Avançaram juntos na rua, deixando por momentos os amigos fora do seu alcance de olhar ou julgamento. Após a primeira linguagem corporal que ditava a despedida, os protocolares e respeitosos dois beijos na face, deram as mãos. Virados de frente um para o outro ficaram a olhar-se, ali no meio da rua numa hora tardia, de mãos dadas. Passou-lhe pela cabeça que as mãos firmes dele traziam segurança, calma. Novamente, como naquela noite que partilharam sozinhos o elevador, estavam de olhos mergulhados um no outro e os segundos pareceram estar a acelerar um momento que tinha sido adiado meses antes. Abraçaram-se para que os seus olhos pudessem fugir para outro lado que não os olhos que ali se perdiam e ela deu-lhe um beijo na face. E mais outro. Sentiu-lhe as mãos firmes na cintura e por pouco os seus joelhos não fraquejaram – a par com a mesma moralidade que os tinha feito sair em andares diferentes na noite em que se conheceram. Enquanto os seus corpos de afastavam num abraço que ali se desfez, as mãos procuraram novamente as do outro, para momentos depois se desatarem e numa despedida desconfortavelmente formal, seguirem direcções opostas. Mais uma vez, a par com o que tinha acontecido na noite em que partilharam o elevador enquanto se fitavam, a sua mente obrigou-a a questionar-se. Mais uma vez.

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