Da efeméride do Dia da Mulher

No ano de 1857, exactamente a oito de Março, as operárias de uma fábrica de têxteis, em Nova Iorque, entravam em greve, reinvindicando pela redução do seu horário de trabalho, de 16 para 10 horas diárias, uma vez que mesmo trabalhando as mesmas horas que os homens, recebiam apenas um terço do salário. Como resposta à queixa foram fechadas na fábrica, e 130 mulheres morreram queimadas num incêndio “acidental”.

Na sua grande maioria, as mulheres continuam a ganhar menos, muito menos, que os homens, mesmo que nas mesmas tarefas, com as mesmas responsabilidades e horários. Esta data só faz sentido enquanto continuar a existir diferença de género, salarial, de direitos humanos, de liberdade, do que for. Esta efeméride serve para pensar, para lembrar, para agradecer às mulheres que lutaram no passado pelos mulheres que podemos ser hoje. E gostava mesmo muito de ainda poder ter tempo de viver num mundo onde esta efeméride não faça nenhum sentido.

E não, como mulher e não mulherzinha, neste dia não recebo nem flores nem jantares fora.

Anúncios

Outono revisitado

éoutonoenãoestas.jpg

Mais um outono e nada daquilo que imaginei um dia aconteceu entretanto. Pouca é a diferença nas cores pastelentas que preenchem, a tempo, os passeios das ruas. As folhas caem mais uma vez para  enchem o chão de memórias sem vida, como um filme antigo e lento, mudo sem cores vibrantes. Dizem que o outono é época da renovação, uma altura certa de novos começos e nova vida. Talvez. Nas árvores isso acontece. Não sou uma árvore. O outono pesa-me sempre e não me deixa a sensação de renovação. Entre uns outonos e outros mudei os sons das músicas que me falam de ti, antigas na mesma como em outonos anteriores, e os livros foram renovados com novas estórias, com pouca diferença de guião. Sabe-me ao mesmo, o outono. Pouco lesto. Sempre outono. És-me sempre outono e não me sabes a mudança, nem a vida nem a recomeço. É novamente outono, mais uma vez não estás, não me agasalhas para o frio que preencherá agora as noites na cidade que se mantém volátil e egoísta e me faz andar ao arrepio mais uma vez. E já não me interessa o cheiro das castanhas que todos elogiam nestas tardes que já só contam com uma hora de bafo calorento e ilusório pelo sol que só espreita a medo e que me sombreia o coração. Continuo a sujar os dedos em folhas de jornal, fraco luxo, e a olhá-los como sinal gasto de recordação. Afinal é outono e tu mais uma vez não estás. Os autocarros continuam a moverem-se lentos e caprichosos e eu já nem sequer sou última paragem. É outono e tu não nunca estás. É outono e nem sei onde estás. Não escrevo mais sobre o outono, até um outono me preencher com momentos que não me saibam a memórias vazias de um vulto sozinho numa espera demorada e inútil num banco de jardim. Odeio o outono. Tu não estás. Serás infelizmente a minha estação triste. És-me outono.

Guardo-te enquanto te puder guardar

10592747_10204743034604027_494494107340797406_nGuardarei as memórias como arquitectura do nosso amor. Guardarei o som do teu riso e o sabor da tua pele. Guardarei a sensação do teu toque forte e a forma das tuas costas. Guardarei o teu cheiro na minha almofada e os teus cabelos perdidos nos lençóis. Guardarei-te a ti, e o pouco que me resta do homem que foste, em mim, até que o para sempre se dilua no tempo. Até que se mudem lençóis e o teu cheiro de desvaneça. Agarro-me a tudo o que possa que me lembre de ti enquanto me divido a esperar que desapareças ou que me reencontres. Que te reencontres. Que sejas o homem que julgava estares destinado a ser para mim ou que me deixes com memórias a preto e branco, com cheiro a antigo. Aqui e agora, enquanto na boca tenho sabor a fel, recordo a doce ilusão a que me soubeste. Engulo-a a custo, a par com saliva que me lave o sabor a amargo. Enquanto tudo isto não muda, guardo-te enquanto te puder guardar. Até que desvaneças em mim ou me invadas de novo.  Até que me devolvas a mim mesma.

Enquanto Dormias #repost – há seis anos como hoje.

Fiquei a ver-te. Descansado. Perdido nas horas que passam sempre depressa. Afaguei-te o cabelo. Perdi-me nas sombras que te marcavam o rosto a cada vez que mudavas de posição. Descobri-te uma pequena cicatriz no sobrolho. Apaixonei-me outra vez. Fiquei, vagarosamente, a olhar para ela. Depois descobri-te um pequeno sinal,quase imperceptível, debaixo do olho esquerdo. Como é que nunca o tinha visto antes? Voltei a apaixonar-me. Perdi-me uma imensidão de tempo, que são sempre minutos apressados, na pequena cova que tens no queixo. Decorei-te o desenho dos lábios. São perfeitos, foram, por certo, desenhados à mão. Toquei-te a barba que começou a
aparecer no avançar da noite. Farta. Forte. Semeada com exactidão. Apaixonei-me.
Enquanto tinha a mão aberta sobre o teu peito, e te sentia o pulsar do coração na palma da mão, reparei, acho que pela primeira vez, na tua maçã de Adão. Fiquei outros tantos minutos vagarosos, dos que passam a correr, a olhar para ela. Para ti. E ali estavas tu. Sem roupas. Sem máscaras. Sem nada que disfarçasse o que és ou do que és feito. Tu. Simplesmente tu. Desprotegido mas sem um rasgo de fragilidade. A nu com a luz que se agitava no quarto, a cada vez que mudavas de posição. E voltei a apaixonar-me.

Felicidade: um campo com papoilas

papoilasEra pequena e andava sempre com a cara suja. Usava t-shits do meu irmão, porque sim, que muitas vezes me passavam dos joelhos. Era traquina mas doce e tinha a cabeça cheia de sonhos. Tinha olhos curiosos e cintilantes, a cara cheia de sardas. Tinha sempre os joelhos arranhados e os cotovelos com crostas. Era, sobretudo, livre. Enfiava-me por atalhos de terra batida na minha BMX amarela, pedalava horas seguidas entre as várias aldeias que rodeiam a minha e quando dava com um campo com papoilas espojava-me nele horas. O cheiro a feno e os salpicos vermelhos nos campos sempre me lembraram a infância, a vida. Vermelho cor de sangue a salpicar o feno que já não verdejava. Pelo caminho nos meses secos apanhava amoras, a cara suja e as mãos manchadas eram muitas vezes delas, das amoras que comia quentes e sem a preocupação de esperar por chegar a casa e as lavar. Nunca me fizeram mal, pelo contrário. Tinha cabelo loiro fininho que da ventania, ora de andar de bicicleta, ora de lhe mexer com as mãos sujas, andava sempre cheio de nós. Mas era criança e tinha a felicidade de ter a minha BMX, herdada da minha prima, e podia espojar-me nos campos de papoilas, rebolar no feno e comer amoras quentes.

Vivi como um fantasma no último ano

Levantei-me todos os dias e fui trabalhar normalmente e em alguns deles vim para casa mais cedo nos “braços” de amigos que me conduziram o carro depois de desmaiar. Ou de vomitar. Ou de desmaiar e vomitar o emprego. O médico mandava-me meter baixa mas o silencio ensurdecedor que ia ter em casa causava-me tanto pânico que não me pus à prova. Era mais fácil ir trabalhar e saber que se acontecesse alguma coisa estava lá alguém para me acudir. Vivi um ano como um fantasma pálido. Perdi 8 kilos, eu que já era magra. Levantei-me todos os dias e fui trabalhar enquanto chorava de horror e nojo de ver o meu corpo a definhar. Médicos e mais médicos. Perdi o gosto por quase tudo. Deixei a certa altura de gostar de mim mesma. Levantei-me todos os dias para ir trabalhar sabendo que o dia ia acabar comigo deitada no chão do chuveiro a chorar. Custou-me a solidão apesar de muitas vezes estar rodeada de pessoas que sei que se preocupam comigo, que gostam de mim. Mas em mais de 365 noites, muitas delas foram de uma solidão devastadora. Vivi um ano como um fantasma que já nem se via reflectido no espelho. Acordei várias vezes com galos na cabeça esticada no corredor de casa. Sozinha. É assim que vivem os fantasmas, perdidos e sozinhos. Num momento negro, em que senti uma revolta absurda com tudo o que me estava a acontecer, fiz algo que nunca acreditaria fazer se me dissessem que seria pessoa para uma coisa daquelas: em raiva agarrei com as duas mãos os meus cabelos e puxei-os. Arranquei bastantes. Não me doeu. A raiva cobriu a dor. Fiquei morta de vergonha. Fiquei assustada. Esta não sou eu. Esta nunca fui eu.

Percebi no último ano que não conhecemos os nossos limites. Não sabemos onde está a linha que achávamos que nunca íamos ultrapassar. Percebi que não sabemos que rastilho nos pode fazer explodir. Acho que o meu foi o sentir indiferença pelos fantasmas. O mundo não para. A vida de toda a gente continua enquanto o fantasma vai vivendo um dia a dia de repetição. Levantei-me todos os dias para ir trabalhar sabendo que o dia ia acabar comigo esticada no corredor de casa ou a chorar no chão do chuveiro. Amarela, magra, com os olhos encovados, miserável, doente. O mundo começou todos os dias para os outros à minha volta enquanto o meu acabava todas as noites com a certeza que acabaria novamente na noite seguinte.

Palavras gastas.

As palavras estão gastas. Não sei o que mais te posso dizer quando não me ouves na maior parte do tempo. Tudo o que quis foi que nos déssemos a hipótese de sermos invencíveis juntos. Mas tu, tu e as tuas ideias absurdas enraizadas, a ouvires prisão quando eu dizia amor. A gritares sacrifício quando eu sussurrava dedicação. Tu a fugires de mim enquanto eu corria para te ter perto. As palavras estão gastas. Amor. A palavra está gasta. Velha, maltratada, desprezada. Foges de mim como de uma tragédia. Amor. Uma tragédia, efectivamente. As palavras estão gastas. Não me sobram. Usei-as todas. Palavras. Não as guardaste. Uma batalha. Rendida. Gasta. Trágica. Amor. Estou gasta. O meu amor está doente, matou-me a ilusão. E não tenho palavras. Gastei-as todas. Tenho uma tragédia ao peito.  A tragédia esteve sempre à coca, a ver quando me trapaceava. Iludida. Cheguei a pensar que a trapacearia a ela. Ilusão. As palavras estão gastas. O meu amor está doente e tenho a tragédia ao peito. Culpa. Pesa-me a culpa. Culpada. Sou culpada. A tragédia não se escondeu. Vi-a de início, iludida. Não me sabia o amor a doente.Tive fé. Não sei a que me agarrei. Fé. Vou chamar-lhe fé. Chamo fé ao que sei ser ilusão. Amor. Castigo. Desilusão. Tenho uma tragédia no peito. Dói-me. Culpada. As palavras estão gastas. Nada me sobra. Sempre foram elas a valerem-me. Não as ouviste. Repudiaste-as. Crenças. De que me servem as crenças? As crenças nunca me valeram. As palavras sim e estão gastas. Eu quis acreditar. Crenças. Atiro-as agora ao chão, com as palavras que me sobraram, ainda que gastas. O meu amor não foi amor. Foi outra coisa qualquer. O meu amor perdeu a batalha. O meu amor é tragédia. grita sozinho, ninguém o ouve agora, porque lhe faltam as palavras, não tem o que gritar. Gastas. As palavras estão gastas. O meu amor andou sozinho, Está perdido, agarrado à tragédia, que me pesa no peito. As palavras estão gastas. Culpada. Eu. As palavras estão gastas. Ruína. O meu amor virou ruína. As palavras estão gastas. Não me sobra nada. As palavras foram todas gastas.IMG_2400.PNG

Encontrei-te no fundo de um copo de vodka com limão

Encontrei-te no fundo de um copo de vodka com limão.
Depois de meses segura de que nem existias, meses depois da confiança e do orgulho de que te tinhas ido embora. Meses depois, anos depois, uma década, encontrei-te no fundo de um copo de vodka limão. Fitei-te e logo desviei o olhar. Não era suposto estares ali, à espera de uma oportunidade para me assaltares o olhar, a consciência. No fundo de um copo de vodka? Eu que pensava que estavas empoeirada no fundo de uma gaveta.  Depois de um copo novo, com fundo preenchido, cubos de gelo a mais, uma meia rodela de limão, vi-te espelhada nos olhos dele. Mas como é que foste aí parar? Ignorei-te, tu já não existes, eu matei-te, bem o sei. Já te matei há alguns anos, não tive sequer piedade por ti, nem pelos anos que viveste em mim. Matei-te de um só golpe no dia em que ousei sentir orgulho. Foi um dos dias mais libertadores a que assisti, sem desviar o olhar, desta vez eu à tua procura. Sim, nesse dia estavas no fundo da gaveta.  A música começou a berrar, incomodou-me, afectou-me a área de broca, fiquei bloqueada, era o que se chama de afasia temporária. Ninguém deu por conta. Asseguro-te. Ninguém percebeu que te vi no fundo de um copo onde uma vez estiveram vodka, sumo de limão, cubos de gelo e meia rodela de limão.  Bebi o resto da vodka, a segunda, terceira, e olhei para o fundo do copo. Pus-me à prova. Desafiei-me, desafiei-te. Não estavas lá. Ainda bem. Não te quero encontrar no fundo de um copo de vodka com limão, quero saber que estás guardada, empoeirada, inerte, no fundo daquela gaveta.

Miss snob em hora de ponta

Se vamos viajar com o maestro acho que seria gentil, pelo menos, ouvires o último álbum dele. Eu empresto-te o meu, já o comprei, antes que te vás armar em pirata e sacar da Internet“, disse-me com ar tanto paternal quanto autoritário. A saber, não tenho um intelecto desenvolvido ao ponto de saber retirar prazer em ouvir música clássica. Percebo a beleza mas mexe-me com os nervos. Ficam em franja aos acordes que se repetem musica a música. “É que numa das noites em São Petersburgo ele vai dar um mini concerto para nós, era de bom tom saberes pelo menos o nome de uma ou outra música do novo cd“, afiançava ao dar conta da minha tentativa de escape. “Vá ouves uma vez ou outra no trânsito“, convenceu-me. Aviso assim que se derem conta de uma miúda com ar enfadado presa no trânsito do IC19 ou 2 Circular a fumar cigarros seguidos ao som de  plins tlins de piano sou eu. Se vos irritar muito batam-me (na traseira que já tenho lá umas mossas para arranjar). Capa-EnsemblePs. Gosto muito do Rui Massena, como pessoa mas tenho ouvido duro (burro) para o género musical. Mea Culpa.

O Amor esgota-se, percebi.

fgh.jpg

Num mundo cada vez mais egoísta, é uma arte fazer o amor durar. Cada um quer ser feliz de acordo com o seu ego, com as suas particularidades mais individuais. Impõem-se a nossa perspectiva do que seria o ideal de amor ao outro e espera-se, de ego cheio, que o outro aceite, se renda. Matamos o outro nesse preciso instante.Reduzimos quem nos ama, tentamos vê-lo vergado à nossa maneira de viver. Reduzimos os sentimentos do outro a caprichos nossos. Encostamos à parede, de ego cheio. Não estamos dispostos a perceber o que é afinal o amor, aquele relance que nos foi dado a ver no inicio da relação matamos por egoísmo. O amor esgota-se. O amor quando posto à prova é prepotente, brutal, assassino. Sim, o amor esgota-se.